SALIM - um mestre inesquecível

A primeira lembrança que guardo do Professor Ibsen Francisco de Sales vem do final de 1963. Ele e o ex-prefeito José Pinto de Aguiar criaram um cursinho preparatório para ingressar no Ginásio Guido Marlière. Terminava eu o 4º ano do grupo escolar com a querida Profª Élvia Reis de Andrade. Graças ao somatório dos ensinamentos desses mestres fui aprovado em primeiro lugar no exame de admissão, para surpresa de muitos, inclusive a minha. Passei raspando em Português com a nota 5, a mínima permitida. A média geral não foi grande coisa: 6,9. O primeiro lugar não foi por mérito meu e sim pelas dificuldades do famigerado exame que impediu vários rapazes de matricular-se no ginásio. Muitos colegas não foram aprovados nesta etapa. Ficaram para os próximos anos. Mas não quero falar disso. O meu assunto é o Prof. Ibsen, carinhosamente conhecido por Salim. Fiz, em 1964, o primeiro ano ginasial, hoje 5ª série, com o Prof. Ibsen lecionando Português para uma turma enorme. Alunos de várias faixas etárias, alguns meninotes, outros rapagões.
Ia de desatentos a rebeldes, de tímidos a bagunceiros. Nada que uma boa reprimenda não controlasse a classe. Aos mais afoitos ameaçava-lhes bater com uma gigantesca vara de talo ubá. Intimidação nunca levada a efeito, mas o suficiente para acalmar petulantes e assim poder explanar as suas inesquecíveis aulas. Só para se ter uma idéia do encantamento dessas aulas, até hoje são rememoradas por saudosos alunos. Quando em férias na cidade, pois em 1965 fui estudar em Rio Pomba, corria a assistir às suas aulas. Quem não se lembra das encenações e histórias como a do “ME DÁ MEU ANEL...” e outras invenções de sua mente criativa. Quando ouvia alguém dizer “PRA MIM FAZER”, Salim bronqueava desesperado, dizendo: “MIM NÃO FAZ NADA”. Aprenda de uma vez por todas: “PARA EU FAZER.”

Voltando no tempo

Ibsen Francisco de Sales, filho de Antônio Fernandes de Oliveira e Maria Madalena de Oliveira, nasceu a 29 de janeiro de 1920, na Fazenda do Progresso, distrito de Sereno, município de Cataguases. Mais tarde mudou-se para fazenda Santa Cruz que hoje pertence a Guidoval. Ali viveu toda sua infância e adolescência, no seu dizer “no meio de pessoas broncas”. Não existiam escolas para se estudar nas proximidades. Aprendeu as primeiras letras com sua irmã mais velha Maria Augusta de Oliveira. Aos 22 anos saiu da fazenda para tentar a vida na cidade. Acolheu-o seu tio Teófilo Teodoro da Silva com quem praticou em farmácia na localidade de Coimbra, à época, distrito da cidade de Viçosa. Depois trabalhou na farmácia Gomes em Visconde do Rio Branco. Seguiu-se dali para o Rio de Janeiro para exercer a mesma profissão. Por não se adaptar com a mudança de clima, retornou a Minas Gerais e foi viver em Belo Horizonte, nos anos de 1.954 e 1.955, quando fez o curso de Auxiliar de Enfermagem. Trabalhou nesta profissão na campanha contra a Tuberculose, doença terrível naquele tempo. Por essa ocasião trouxe de Belo Horizonte para Guidoval o “Jogo de Buraco”. Logo se transformou no passatempo predileto dos amantes do carteado, com a vantagem de não se apostar em dinheiro, impedindo prejuízos monetários aos competidores, quando se sabe que em Guidoval já se perderam até fazendas nas mesas de Pif, Cunca e Pôquer. A moda espalhou-se. Entre os adeptos, podemos citar o irmão Jésus Fernandes de Oliveira e os amigos Adauto Pacheco Ribeiral, Cândido Alves (Duzin) Vieira Filho, Chiquito Galdino, Jorge (Negão) do Tilúcio, Odilon Marcelo, Oséas Teixeira Albino, Zé Bressan, Zé Maria Matos. Em 1956 o Salim fundou o jornal “Espião”, de curta duração. O diferencial consistia na forma como era redigido, todo em charadas e trocadilhos, criticando o cotidiano duma Guidoval dando os primeiros passos como cidade. Ele 1.957 retorna ao Rio de Janeiro para trabalhar novamente, durante o dia, no ramo Farmacêutico. À noite, estudava numa escola particular o curso de madureza. Em 1966 conseguiu o certificado do primeiro grau. Estabelece por uns tempos em Cataguases no comércio de secos molhados. Abandonou esse comércio para ser secretário particular do Prefeito Francisco Moacir da Silva em Guidoval. Paralelamente leciona Português no Ginásio Guido Marlière. Freqüenta vários cursos de adestramento para professores (CADES). Obtém o registro definitivo de professor em 1968 apenas com o certificado de 1º Grau. Estuda segundo Grau no Colégio Raul Soares em Ubá. Além da Escola Estadual Guido Marlière leciona ainda na Escola José Januário Carneiro, em Ubá, até 1985.

Julgamento, Testamento e Queima do Judas

Na década de 60 era costume a Queima do Judas. Na noite de sábado aleluia, a rapaziada saía à cata de tudo que estivesse dando sopa nas varandas e quintais das casas de nossa cidade. Tudo que pudesse ser surrupiado era levado para o Largo, a nossa Praça Santo Antônio. Desde um simples vaso de avencas, uma gaiola com passarinho ou um animal de estimação, até carro-de-boi, charrete ou automóvel. O arrecadado virava espólio do Judas. Todos os objetos eram catalogados e identificados com o nome da pessoa que seria herdeiro do Judas. Na verdade o real proprietário dessas doações involuntárias, ocorridas na calada da noite. Encarregava-se de fazer o testamento do Judas o Prof. Ibsen, auxiliado pelo Dr. Gerson Occhi e outros poetas improvisados que faziam uma quadrinha apropriada para os herdeiros. Quadras espirituosas criticando os costumes, a política, o cotidiano. No domingo de Páscoa, após a missa celebrada pelo padre Oscar, Judas era julgado, lia-se o seu testamento e queimava-se o Judas. Na verdade, um boneco, tipo espantalho, enforcado num mastro, recheado com bombas e fogos de artifício. Cada herdeiro voltava para a casa com o que já era seu de direito. Alguns, poucos, chateados e insatisfeitos, a maioria encarava com bom humor esta tradição trazida pelos portugueses.
Contou-me o Salim que uma vez o pessoal estava levando o jipe do Natalino Dornelas, para o Curral do Judas, quando este acordou e atirou nos meliantes. Tiros para o alto, com certeza.
Aí se fez esta quadrinha:
Soltou tamanho tiro  
Da pólvora senti a catinga  
Mostrou-se desta maneira  
Ter nascido em Tuitinga.”

Tempo passando, baú de recordações transbordando

Relembro do Salim no campo do Cruzeiro apitando partidas de futebol. Chamavam esses árbitros amadores de juiz de embaixada. Insensível aos gritos e pressão das torcidas insanas, Salim era incorruptível, temente a Deus, aos homens jamais. Lembro mais, dele num jogo de veteranos, improvisando-se de goleiro, assumindo a ingrata posição, onde nem grama nasce, quando o verdadeiro goleiro da família sempre foi o seu irmão Pedrinho. Sobrinho de poetas, o Prof. Ibsen, sempre procurou imitá-los.

O livro “Saudade Sapeense”, editado em 1982, registra algumas poesias de sua autoria e dos tios-poeta Abílio Teodoro da Silva, Ilídio Amaro da Silva e João Agnelo da Silva. De suas anotações pessoais, retirei:

Admirador da poesia, principalmente a poesia tradicional, pela simetria dos versos e de rimas!”.

No site da cidade de Guidoval tem o Cantin do Salim , na página onde pode-se ler algumas de suas poesias, charadas, apontamentos e um exemplar completo do jornal “Espião”. No início da década de 70 os boêmios e seresteiros encontravam-se no Bar do Oscar Occhi que fazia “o melhor bife acebolado de toda a região”. Por essa época, eu começava a arranhar os primeiros acordes ao violão. Inúmeras vezes acompanhei o Salim interpretando “RAPSÓDIA NEGRA”, texto de Martins Fontes, que o Prof. Ibsen, em primorosa adaptação, transformou em poesia.

Em 1978, em plena terça-feira de carnaval, o Salim intimou-me a abandonar o baile momesco no “Clube Francisco Campos” para acompanhar o Bijica (José Occhi) numa serenata.
A princípio, tentei adiar o evento para um outro dia. Não consegui. Salim usou de argumento “ad populam” (*). “
Foi golpe baixo mesmo, do tipo”não conte mais com minha amizade”, “nunca mais fale comigo”. Cedi-me à sua lógica, renunciei-me à folia e fomos à serenada. O Bijica com a sua voz melodiosa, a mais bela da história de Guidoval, parecia o flautista de Hamelin. Quase metade dos foliões desistiu do folguedo para acompanhar e ouvir o Bijica.

Durante o percurso da serenata o cordão foi só aumentando. Sem dúvida, uma serenata memorável, patrocinada pelo romantismo e insistência do Salim, carregando um litro de conhaque e outro de campari para matar a nossa sede.

Título de Cidadão Guidovalense

A 19 de junho de 2001 escrevi uma carta a todos vereadores de Guidoval sugerindo reativar o projeto de se outorgar o “Título de Cidadão Guidovalense” a beneméritos do nosso município. Apresentei, à apreciação, quatro nomes: Prof. Ibsen Francisco de Sales, Frei Adriano, Prof. Murílio de Avellar Hingel e o poeta Marcus Cremonese. O Frei Adriano (projeto vereador José Occhi Medeiros) e o Prof. Ibsen (projeto vereador Lúcio José Garcia) foram agraciados em 2001. O Prof. Hingel (projeto vereador Juscelino Pinheiro) recebeu o título em 2003. Ficou faltando o poeta Marcus Cremonese, autor do poema “De como eu amo uma cidade”. É o mais lindo poema que conheço sobre uma cidade. E quem declara o seu amor a uma cidade de forma tão cristalina merece desta cidade a acolhida de um filho, o abraço de um irmão, o reconhecimento de conterrâneo. Mas isso é assunto para outra matéria. Falemos do Prof. Ibsen. Enfermo, não pôde comparecer à cerimônia de entrega do “Título de Cidadão Guidovalense”. Mas só da comenda ser feita em vida tem um valor inestimável. Bem dizia o poeta Nelson cavaquinho “Me dêem as flores em vida”.

Ainda em junho de 2001, lancei na nossa cidade um CD que gravei com algumas de minhas músicas. Dentre elas fiz uma em homenagem ao Salim, relembrando as nossas brincadeiras feitas com uma canção com rimas terminadas em Ó. Em sua residência, entreguei-lhe um CD. Alquebrado, com uma dor incômoda na coluna, recebeu-me com o carinho de sempre. Mostrou-me uma fotografia, dos tempos que trabalhava em Visconde do Rio Branco e confidenciou-me que tivera um filho com uma moça daquela cidade. Não lhe sabia o paradeiro. Parece que ele já tinha falecido.
Não me contou vangloriando-se, nem lastimando. Só uma conversa entre amigos. Toda vez que vinha em Guidoval, visitava-o. Em muitas de minhas férias passei horas e horas assistindo, sapeando e até jogando buraco com os aficionados desse entretenimento. Em muitas oportunidades, ele buscava cervejas no Bar da Rodoviária para me servir. Logo ele que abandonara o álcool, este traiçoeiro líquido que tanta gente leva ao fundo do poço. Decisão esta, que lhe deu sobrevida e lucidez para se tornar um profícuo octogenário.

Salim colaborou com diversos jornais de nossa terra. Com certeza, vivo fosse, estaria nos ajudando a escrever o nosso periódico. A última lembrança que tenho do Salim é de depois da Festa de Santana de 2001.
Fui visitá-lo, junto com o seu fiel amigo Zé Mauro (Pescuma). Reclamou das dores nas costas, impossibilitando-o até de sair da cama. No dia 17 de setembro de 2001, minha mãe telefonou dizendo do falecimento do grande mestre Salim. Não pude comparecer ao enterro. Rezei minhas fracas, mas sinceras, orações por sua alma.
Que DEUS O TENHA E O GUARDE SEMPRE.

escrito por Ildefonso DÉ Vieira

(*) Argumento ad populum. (Lóg.). Sofisma em que se associa ao objeto da argumentação elementos que tocam à sensibilidade, às necessidades, às aspirações, aos temores, etc., do público que se quer convencer.