Rapsódia negra

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É noite de São João,

É noite de lua cheia,

Lá fora faz frio.

Em torno do fogo aceso no terreiro,

vindos do Congo e da Guiné,

Crioulos e crioulinhos,

caboclos e cabranazes,

dançam e se misturam

aos sons dos rapapés

com o som dos instrumentos mais exóticos

 

Zunem, zunzunem os tambus e os urucungos,

zinem berimbaus,

gritam estrídulos apitos,

troam tambores, reco-recos e timbales,

ouvem-se chios de chinelos e de caixas,

cascavelhadas de chocalhos rechuchados,

rugidos e remugidos,

rouquidos e zangarreios,

grulhos, grugrulhos,

de cangueiras e de canzas,

de puítas e de marimbas,

zonzons de embiaxós.

 

Picando o passo,

o dançador desarticula-se,

saracoteia, cabriola,

regamboleia, e perereca,

e se distorce,

e desconjunta-se

em tremuras epilépticas,

em contraturas espasmódicas, tetânicas,

como o doente, quando dá o tângoro-mângoro,

e ficam zangaralhões,

bambalhamassas,

trangalhadanças.

Como as corujas, como os corvos crocitando,

em uivos surdos, em regougos agoureiros,

de cururus, jacurutus e noitibós,

 

Lúgubres, fúnebres, soturnos,

se misturam os zumbos dos urucungos e os rufos dos timbatus.

Trinam, tinindo, campainhas retínulas . ..

rataplãs, tantãs de tamborins,

roucos tutuques de zabumbas e ritumbas

— e o batourar, tamborilando, interrupto,

no babaréu das mussambas, o barundum dos atabaques.

Em trepe-trepe, em trape-trape, em teque-teque,

em estralada estrepitosa, estrondeante,

taraz-baraz, quadrupedando,

estrupidante, rugitando, em rugibó,

estalido e sapeteio,

retumba o mundo africano,

trabuca o cateretê!

 

texto de Martins Fontes

adaptação e interpretação do Prof. Ibsen Francisco de Sales – SALIM)