Carro-de-Boi
Trecho retirado de um poema, de Marcus Cremonese, chamado : "Das qualidades de cidadezinha do interior"
(...) " Quero apenas
um moto perpétuo
de gemidos doces
de carros-de-bois,
mas daqueles
de rodas maciças com dois buracos
como olhos de bêbado." (...)

 

ÔÔÔÁÁÁ    

Achei o tópico do jornal onde se falava da gozação ao Antônio Barbosa em Brasília - conheci o Antônio muito menino ainda...

A placa daquela proibição é um ícone que tenho guardado muito claramente, como que marcado a fogo, nas minhas lembranças do Sapé.

Simplesmente porque ela ficava há menos de dois metros da janela do quarto onde eu me hospedava na casa da Vó Jovita. Sei de cor os dizeres, em fundo branco, com letras vermelhas:

" É proibido carros de boi cantar nas ruas da cidade.

Multa $10:000 ".


Sim, senhores, não sou do tempo dos
mirréis mas a placa estava lá, mesmo com os cruzeiros do Getúlio Vargas já em voga, ameaçando multar os infratores em dez mil réis - sempre direi "mirréis" que é o que ressoa como poesia dentro meus dos ouvidos.

Mas não sei se alguém, algum dia, foi multado. E mineiro é lá besta de pagar multa por uma coisa destas? Eu assistia a todo um ritual, agachando debaixo dos carros de boi, cheio de curiosidade.

Vinham eles pela estrada de baixo (a de cima também era de terra, poeira só). A casa da Vó Jovita foi por muitos anos a primeira casa à esquerda na entrada da "rua", de quem vinha de Ubá.

Daí a placa. E justamente lá é que paravam eles. O carreiro descia, o candeeiro pegava um chifre de boi, cheio de azeite de mamona, que vinha pendurado debaixo do carro, num gancho perto do cocão.

Com um chumaço de palha de milho untava o eixo e os cocão (no singular mesmo, ninguém jamais disse isso no plural, duvido, nem vai dizer de jeito nenhum, pois está decretado: cocão está extinto). E lá ia o carro, caladinho, carregado, um digno cumpridor da lei. Não dá prá saber o que os bois deviam achar disso, pois era uma quebra brusca naquela melodia que certamente os mantinha entretidos, aliviados das ferroadas e dos gritos de algum carreiro mais mal-humorado. E na saída da cidade vinham eles. Paravam debaixo da mesma placa.

O candeeiro desta vez pegava o litro de querosene arrolhado com sabuco e uma lata vazia, de óleo de cozinha por exemplo, que vivia cheia de carvão moído e em pedaços. A operação consistia em passar o querosene, para retirar o azeite de mamona, e passar o carvão para fazer o carro voltar a cantar.

Há um mês visitei em Cremona, Itália, o museu Stradivarius, a casa velha onde o mestre Antônio fabricava o violino que se tornou o mais famoso do mundo. La não se usa, certamente, carvão prá afinar violinos. Mas lá, vendo as ferramentas e os moldes criados pelo mestre, me veio um flash back do som dos carros de bois do Sapé.

Acho que não exagerei - e se exagerei também acertei, pois os critérios da poesia são insondáveis: o som dos carros de boi do Sapé eram de "fazer corar de inveja qualquer Stradivarius"... como recitei naquela noite no antigo cinema.

Faça-me um favor: Diga ao Antônio Barbosa prá deixar de "bubiça". Ele teve foi o privilégio de ouvir esses carros de bois... já os que fizeram a gozação, perderam esse pedaço da nossa história mineira, manhosa, matreira.

Marquim da Rute

 

Dando nome aos Bois
Carro-de-Bois não tem mais não. O progresso levou os bois, os carros e junto os carreiros.
Lembro-me do Zé Coelho, meeiro nas terras de meu avô Ildefonso Gomes; guiando o Sabonete, Diamante, Turuna, Senado, Escovado, Porto Novo, Navegante. Todos transportando minha infância, em viagem de légua-e-meia da fazenda até ao centro da cidade de Guidoval.
Relembro do carreiro Chico Laureano e do Tida Venâncio, fazendo pequenos carretos, buscando areia do Rio Chopotó, alicerçando sonhos de uma nova residência .
Tinha também o Pedrinho do Pedro Ribeiral, o "Jõe Natale" que trabalhava para o Antenor Bressan ou então o candieiro, GAGO DE ASSOBIAR, que morava nos terrenos do fazendeiro Afonso Bressan - D. Olga Ribeiral.

Reminiscências de Ildefonso Vieira ( Dé do Zizinho ).

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A fotografia, acima, do Carro-de-bois, tirada na Cachoeira, é do Arquivo Pessoal de Marcus Cremonese

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O texto, escaneado, foi publicado na Coluna PAINEL do Jornal "Folha de São Paulo" em 18/12/93